As propostas para a saúde e a pandemia como um fator contextual

Carolini Silva*

A pandemia de Covid-19 no Brasil criou expectativas em relação às eleições municipais de 2020, de maneira que as discussões se concentram tanto nas condições de realização do pleito quanto nas estratégias adotadas pelos candidatos em uma conjuntura, até então, incomum. Nesse último caso, o que esperar das eleições quando o assunto é saúde? Quais são as propostas mais ou menos dominantes? Este texto tem o objetivo de oferecer ao leitor um pequeno panorama acerca das propostas presentes nos planos de governo dos candidatos a prefeito de 8 capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiânia, Macapá, Palmas, Florianópolis e Vitória. O critério de escolha das capitais se baseou no número de casos confirmados de Covid-19, sendo as quatro primeiras as mais afetadas pela doença e as demais as menos afetadas**. 

Em um primeiro momento, poderíamos supor que o conteúdo das propostas dos candidatos na área da saúde varia conforme a intensidade da doença, afinal a crise sanitária repercutiu ainda mais em municípios com maior índice de contágio e, por vezes, exacerbou as mazelas do sistema público de saúde nessas localidades. No entanto, não é esse o caso. É possível observar um padrão nas propostas. Estas quase sempre abordam quatro eixos: tecnologia, gestão, infraestrutura e saúde preventiva. Se o tema é tecnologia, os candidatos atribuem importância à criação de plataformas digitais de atendimento e de acompanhamento clínico; quando a questão é a rede de atendimento municipal há consenso sobre a necessidade de aprimorar sua gestão; o debate sobre a infraestrutura é baseado na criação de novos leitos e na construção de novos hospitais; e a saúde preventiva compreende propostas de acompanhamento de crianças, gestantes e idosos e campanhas de imunização. 

A partir desse panorama, fica claro quais são os temas mais mobilizados e que as propostas dos candidatos não variam muito. A pandemia, ainda sem previsão de recuo, poucas vezes é tratada como um tema principal com propostas direcionadas à minimização dos seus impactos. Ela é abordada de maneira contextual, como mais um fator que desafia as estruturas dos sistemas municipais de saúde. Assim, os candidatos, a despeito de suas localidades serem mais ou menos afetadas, parecem apostar no debate de temas mais regulares nas disputas políticas, ainda que a conjuntura remeta à anormalidade.

 

 

 

*Carolini Silva é doutoranda em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ).

**De acordo com o Portal COVID-19 Brasil. Disponível em: https://ciis.fmrp.usp.br/covid19/.